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Entrevista Paula Teixeira

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Entrevista Paula Teixeira

ELO SOCIAL: O que é que começou primeiro, Paula: a língua gestual ou a música?

Paula Teixeira: A música. A música começou muito cedo. Lembro me de fazer espectáculos para os meus pais, desde sempre… Coitadinhos, eles tinham que ver os meus espectáculos criativos, que não englobavam apenas música, mas era toda uma arte geral de dança. E era uma coisa que eu gostava muito de fazer e eles desde cedo perceberam: “esta miúda vai direitinha para as artes seguramente”. E assim foi. Comecei a cantar aos 12, a minha primeira aparição pública num palco – e não foi um palco qualquer, foi o palco do Teatro Maria Matos – foi numa gala de angariação de fundos da Associação de Pais e Amigos de Deficientes Profundos (APADP), onde eles precisavam de artistas e estavam com alguma dificuldade em arranjar cantores. O meu pai que sabia que eu andava sempre a cantarolar disse “Oh filha se calhar, podias ir lá cantar”. Logo assim num palco daqueles… O importante era participar e ajudar porque era uma coisa que realmente me era cara, e comecei logo desde muito cedo ligada à deficiência. E não foi uma deficiência ligeira, eram deficientes profundos. Foi onde comecei a cantar e até hoje sou a madrinha dinossaura da APADP. A língua gestual veio muito depois.

Elo Social: O que é que a inspirou para juntar depois as duas coisas?

Paula Teixeira: Quando comecei a estudar, tinha muito focado na minha cabeça que gostaria de seguir alguma coisa relacionada com a área social e principalmente com as crianças, depois de ter estado tantas vezes ligada a crianças com necessidades especiais. E tentei ir por aí e inscrevi-me no curso de educadora de infância especial. E quando estava ainda a ver qual seria depois a área que me iria interessar, lembro-me perfeitamente do que aconteceu: estava a fazer promoções para pagar a faculdade e de repente, estava no centro comercial, e passa um grupo de surdos e começam a falar e a falar, e eu fiquei ali a olhar, impressionada: “uau, isto é fantástico”. E a minha colega que estava comigo, disse “Olha que eu tinha uma amiga que quis aprender língua gestual…”. E eu, “Isto aprende-se?”. Lembro-me perfeitamente que saí dali e fui para uma cabine telefónica ligar para o 118 à procura do número de telefone da Associação Portuguesa de Surdos. Ela deu-me o telefone, eu liguei e disse que queria aprender. Normalmente quem ia aprender eram familiares ou pessoas que precisassem de aprender, mas comigo foi assim uma cena que foi no dia. E fui. Marquei uma presença para ir lá conhecer a associação e de repente quando entro, deparei-me com uma intérprete que estava a traduzir tudo o que eu estava a dizer e tudo o que ele me dizia a mim. Lembro-me perfeitamente de pensar “Quando eu for grande eu quero ser assim”. E aquilo marcou-me avassaladoramente. Depois fui tirar o primeiro curso básico, em 1997. Foi nesse ano que entrei no Chuva de Estrelas. Curiosamente comecei a cantar e estava a tirar esse curso e ao mesmo tempo estava a tirar o curso de educadora. No Chuva de Estrelas cantei Gloria Stefane, e havia um grupo de surdos na plateia. Eles perguntavam-me “Estás a cantar o quê?”. E eu comecei a traduzir, e de repente dei por mim a cantar para um grupo de surdos, a tentar traduzir do inglês para português, de português para língua gestual, a tentar explicar o que é que a canção queria dizer. E, sem querer, passado muito pouco tempo estava a cantar para uma plateia de surdos, altura em que me convidaram para ir cantar para eles. Aquelas pessoas nunca tinham ouvido a minha voz, o meu timbre… Mas foi fabuloso conseguir perceber que eles entendiam e que a música não tinha barreiras, chegava a qualquer pessoa independentemente das suas limitações. Foi uma paixão tão grande, que depois houve a possibilidade de tirar o curso de intérprete de língua gestual. Mas era incompatível com o curso de educadora. E na altura a profissão de intérprete não era uma profissão como hoje, não era reconhecida e eu fiquei muito na dúvida sobre deixar uma profissão onde já tinha experiencia, uma coisa certa e ir para algo tão incerto. Mas sou um bocadinho de seguir o coração e não me arrependo absolutamente nada. Arrisquei à séria e fiquei a tirar o curso de intérprete na Associação Portuguesa de Surdos. E a música continuou, e depois consegui perceber que eram indissociáveis. Ser só cantora ou ser só intérprete não faz sentido, e então depois de perceber e de ter o privilégio de conseguir passar a música através das minhas mãos mais fantástico se tornou. Continuei sempre a cantar em língua gestual e o meu primeiro disco chama-se Promessa, também muito por isso, a minha música há-de ser sempre sem barreiras.

Elo Social: E foi difícil aprender a língua gestual?

Paula Teixeira: Foi muito difícil. Estive para desistir muitas vezes, porque, ainda por cima, não tenho ninguém na minha família que seja surdo, e isso causava alguma estranheza. E os surdos são uma comunidade um bocadinho fechada. Para entrar não é fácil e o que me ajudou muito foi a música, e sei que fui uma pessoa que fez alguma publicidade pela língua gestual ao cantá-la com as minhas mãos. Por isso também foi mais fácil, mas tive muitas vezes vontade de desistir, porque é uma língua muito complicada, é uma língua como outra qualquer e que se não é praticada se esquece. Ainda hoje tenho imensas dúvidas, porque a língua está sempre em constante transformação, há sempre gestos e conceitos novos, temos de estar sempre a actualizar-nos, e não é fácil. É a nossa terceira língua portuguesa, que já está oficial na nossa Constituição, tem uma gramática poderosíssima.

Elo Social: E há pouca gente a saber falar…

Paula Teixeira: É assim, agora há mais. Não têm é mercado de trabalho. Na faculdade existem os cursos de intérprete de língua gestual, mas vão trabalhar para onde? Vêem-nos na televisão e gostariam de estar lá, mas o mercado está saturadíssimo. E escolas são muito poucas as que têm interpretes, cada vez são menos e são todos centralizados para cidades maiores.

Elo Social: Como cantora, se não é a única, é uma das únicas que faz este trabalho.

Paula Teixeira: Pois, eu não conheço nenhum.

Elo Social: E porquê? Acha que a nossa sociedade está pouco alertada para esta população?

Paula Teixeira: Não sei… Como disse, o meu processo foi muito natural. Nunca pensei “agora vou cantar e vou fazer língua gestual”, nem nunca me passou isto pela cabeça. Foram os próprios surdos que pediram. Hoje já há concertos traduzidos. Ainda há pouco tempo estive num festival em Almodôvar completamente traduzido e acessível. Estavam surdos a vibrar por ter a oportunidade de ver um concertos dos Deolinda, do Paulo de Carvalho… Foi uma coisa mesmo extraordinária. Mas agora cantar e fazer isso ao mesmo tempo já não há tantos. Não sei. É capaz de haver mas o meu processo foi mesmo algo natural e ainda bem que aconteceu!

Elo Social: Além de cantar, também faz tradução em alguns programas na televisão. Como é que avalia o nosso serviço publico actualmente a esse nível?

Paula Teixeira: Está muito aquém daquilo que deveria ser. Apesar de na lei já haver o mínimo estipulado de horas. Em Janeiro vai haver mais uma mudança de lei e mais horas. Mas é muito pouco. Estive noutros países onde a tradução e o quadrado é bem maior. Há países em que há um período de noticiário onde é literalmente metade. Pode não ser o telejornal inteiro, mas nas notícias principais onde está o jornalista a dizer a falar, no outro lado está um intérprete em grande para se conseguir perceber e ter real acesso à informação. Cá o quadrado é minúsculo. Se um surdo tiver uma televisão pequena e tiver problemas de visão, como é que vai ver? Não vai… Mas um quadrado grande estraga um bocadinho ali o grafismo… E isso é uma grande luta porque quando comecei no Batatoon, o quadrado era grande, e na altura não era obrigatório, foi mesmo “carolice” do António, do batata, que queria que o Batatinha fosse percebido por todos. Eu estava a começar há muito pouco tempo, mas aceitei o desafio porque era mesmo uma oportunidade única. E o quadrado era grande, as crianças paravam para ver o Batatoon, porque era o único e até hoje foi o único programa para as crianças surdas terem acesso. Até hoje. Entretanto foi obrigatório na lei haver a língua gestual e eu continuei depois nos programas de entretenimento da manhã e da tarde, e com a mudança do grafismo o quadrado foi ficando cada vez mais pequeno e a acessibilidade cada vez menor. Hoje há mais programas traduzidos, porque existe uma lei, senão… Mas o quadrado é muito pequeno, e espero que com estas exigências se consiga fazer alguma diferença, mas estamos muito aquém, então comparando com outros países é muito pouco, é mesmo só porque tem de ser.

Elo Social: Tendo em conta que já conhece a situação dos surdos em Portugal, considera que existem os apoios suficientes?

Paula Teixeira: Oh falta tanto, falta muita coisa.

Elo Social: O que falta?

Paula Teixeira: Em todas as áreas que se possa imaginar: num serviço social, num hospital, etc. Imagina que aparece um surdo no hospital, quantos deles já morreram porque ninguém os compreende, ou consegue entender o que ele tem, o que lhe dói. Na segurança social quer tratar das coisas e… não há apoio. Tem que contratar um intérprete, que tem de ir – e muitas vezes não vai. Há coisas básicas a que nós todos temos acesso e que nunca pensamos nisso e que para uma pessoa surda é essencial. Nós somos mesmo uma ponte, temos de fazer essa ponte entre os surdos e os ouvintes, para terem os mesmos direitos. A nível de mercado de trabalho: não vai ser telefonista, tudo bem, mas pode fazer muita coisa. Só que as pessoas têm muito aquele estigma.

Elo Social: O que é que podia ser feito?

Paula Teixeira: Haver mais interpretes; eles terem mais apoio, mais acessibilidade; e terem mais direitos, como qualquer pessoa ouvinte. Principalmente na área da saúde é absurdo. Um surdo vai ao hospital e…. Já houve mortes porque não se conseguiu perceber o que é que ele queria. Quem é que está ali para entender? É claro que não era preciso estar um intérprete a toda a hora, mas por exemplo haver um serviço de urgência, ou seja, um grupo de intérpretes sempre disponível para isso, até porque não há surdos todos os dias no hospital com problemas graves.

Elo Social: Mas outra coisa que falta é as pessoas, cidadãos comuns, também saberem língua gestual. O ensino de língua gestual nas escolas não seria uma boa opção?

Paula Teixeira: Isso é a coisa que eu mais defendo desde sempre, implementar o ensino da língua gestual nas escolas logo nas crianças, na escola primária. Agora parece que o Bloco de Esquerda já está mais atento a esta temática e estão a pensar nisso. É uma das coisas por que me tenho estado sempre a debater, até mesmo com a nossa secretária de estado, Ana Sofia Antunes. Mesmo que não fosse obrigatório, ser facultativo, que pudessem ter oportunidade de aprender língua gestual. Eu vejo isso quando vou às escolas e faço o projecto da Fada Juju e ensino o básico. As crianças aprendem, bebem aquilo com uma sede… E ficam com aquela semente e eu sei que aquela semente vai durar e vai ficar para sempre, ou seja, no futuro quando elas virem uma pessoa surda, já não vão estranhar. Principalemente as crianças que são logo muito mais despachadas. Era tão importante ter a língua gestual nas escolas, e espero que isso mude e se consiga aqui em Portugal. E há tantos professores bons e desempregados.

Elo Social: Como é que começou a sua relação com as instituições de solidariedade social?

Paula Teixeira: Começou na APADP. Depois conheci o Rui Vasconcelos e ele trouxe-me logo para aqui. Há muitos anos que já estou aqui no Elo Social.

Elo Social: Há quantos anos?

Paula Teixeira: Já nem sei. Já são muitos anos… E foi o Rui Vasconcelos que me trouxe, porque já tínhamos ligação na APADP e estamos juntos nestas lides sociais há muitos anos, fazemos muitos projectos juntos. E ainda bem que ele me trouxe a esta casa. Eu sinto-me literalmente em casa, sinto como se fosse parte da minha casa. O meu aniversário foi aqui… Este Elo é muito meu também. E eles, por exemplo, hoje viram-me e começaram logo: “Há festa! Hoje estás cá, há festa!”.

Elo Social: Tem participado em projectos aqui do Elo, como o Jesus Cristo Superstar. Como é que avalia a capacidade de interpretação dos nossos atores?

Paula Teixeira: Foi tão bom… Os atores profissionais deviam por os olhos e ver o empenho e o talento destes atores à séria. Eu já vi o Jesus Cristo Superstar várias vezes mas fico sempre impressionada pelo empenho, pelo esforço e dedicação de todos. Ou seja, isto é um esforço de todos e acaba por ser uma equipa em que todos brilham. E é tão bonito, as pessoas ficam tão emocionadas… E no Coliseu então… Foi uma coisa estrondosa, aquilo foi alguma coisa que marcou, fez história. E é de louvar o esforço de todas as pessoas que estão envolvidas, que trabalham com eles individual e colectivamente. Cada um deles tem uma capacidade extraordinária. Estas actividades são mesmo para mostrar ao mundo. E acho que todos os atores deviam ver esta peça. Acho que deviam fazer uma sessão só exclusivamente para atores.

Elo Social: E como é que surgiu a inspiração para a Fada Juju?

Paula Teixeira: Eu sempre fiz o projecto em silêncio desde 2005. Andava pelas escolas a espalhar a língua gestual, com música. E como Paula eu chegava. Agora criando uma personagem mágica, para as crianças é muito mais fácil chegar. E então dei vida a uma personagem que já existe em mim há muitos anos e materializei-a numa Paula ainda mais distraída que a original. Acaba por ser uma fada com que sempre sonhei – porque eu sempre acreditei em fadas e o mundo das fadas para mim é a loucura – e então, poder ser fada era fantástico e poder passar esta magia às crianças era fantástico, mas não sabia se resultava. Então experimentei. O nome, porquê Juju? Porque eu adoro o nome Julieta, mas uma fada ser Julieta era muito complicado, tinha de ser uma coisa mais simples para as crianças apanharem, então Julieta, Julia, Juju… Juju, onde estás tu? Experimentei uma vez em Alter do Chão, para ver se funcionava. Quando um dos gnomos pergunta: “Vocês viram a Fada Juju?”, e eles começam: “Fada Jujuuuu”. Pronto, foi a partir daí. Depois foi criá-la e retocá-la. Continuo sempre a fazer mais e melhor e a ser uma fada que realmente espalha a inclusão, a magia do amor e da igualdade, de uma forma muito natural e divertida. E é muito mais simples fazê-lo como fada do que como Paula. Para as crianças é uma maravilha ver uma fada a falar com mãos, ter gnomos que falam com mãos e aquilo ser uma coisa tão natural que eles próprios querem falar com as mãos, querem conhecer meninos diferentes porque os transformam em super heróis. Ou seja, desmistificar esta coisa da diferença e da deficiência, do surdo, do cego, da cadeira de rodas, mudar isto tudo e ser uma coisa extremamente natural, aceitá-los como normais. Os espectáculos que tenho feito com a Juju têm sido tão gratificantes… É impressionante como eles aceitam e aprendem e como vão espalhar essa mensagem para casa. Há muitos pais que me chegam e perguntam se eu sou a Fada Juju e dizem que lá em casa todos têm de dizer o “Bom-dia”, “Boa-tarde” em língua gestual. Nem que seja por isso, já valeu a pena. E espero que esta Fada Juju tenha muitas asas para voar. Estou a preparar um musical grande que vai estrear para o ano, e também estou a preparar um programa de televisão da Fada Juju e em breve muitas novidades. Porque isto tem mesmo que mudar, as crianças é que vão mudar o mundo e se tiverem a sementinha da inclusão de certeza que a nossa sociedade e o nosso mundo vão ser muito melhores.

Elo Social:  Costuma ser abordada por cidadãos surdos? Pedem-te algum tipo de conselhos?

Paula Teixeira: Sim, abordam-me muito. Há muitos surdos que me conhecem.

Elo Social: Vêem-te como uma amiga já?

Paula Teixeira: É. Já faço quase parte da vida deles. Se calhar quem nos dá mais atenção a nós, interpretes, são os surdos. E nós também somos importantes para a vida deles. E é natural que falemos, e que peçam ajuda ou conselhos. E aquilo que eu puder fazer… No próprio musical eu vou querer ter surdos como atores, quero ter pessoas com deficiência no meu musical. E no próprio programa de televisão também quero pessoas com muita capacidade, porque existem, e independentemente das suas limitações podem fazer um trabalho extraordinário e mostrar que é possível, claro que é possível, basta querer.

 

2017-04-17T11:04:23+00:00

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